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quinta-feira, 28 de março de 2013

Não, Você Não é a Igreja.

“E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à Igreja aqueles que se haviam de salvar”. (Atos 2.46-47)

“Contudo, uma vez que agora nosso propósito é discorrer acerca da Igreja visível, aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos (Mt 22.30). Porque nossa habilidade não permite que sejamos despedidos da escola até que tenhamos passado toda nossa vida como discípulos. Anotemos também que fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação”. (João Calvino, Institutas da Religião Cristã, 4:1:5)

Um movimento que cresce cada vez mais em nosso país é o dos “cristãos desigrejados”. São pessoas que professam o Cristianismo, mas que, por diversos motivos, abandonaram a Igreja. Muitos são os argumentos utilizados para justificar o abandono. O objetivo deste artigo é analisar uma destas justificativas: a ideia de que a Igreja de Jesus Cristo não é visível e institucional, mas que cada cristão faz parte da Igreja, ainda que ele se recuse a frequentar qualquer culto ou se submeter a qualquer autoridade eclesiástica.

Um erro frequente entre cristãos modernos é o menosprezo e ignorância em relação ao que a Bíblia ensina sobre a Igreja visível e institucional. É uma heresia que se manifesta de muitas maneiras, mas, basicamente, se resume a ideia de que não temos a obrigação de frequentar e ser membro de uma igreja, pois, supostamente, cada cristão já “é igreja” onde quer que estejam e qualquer aglomeração de cristãos também “é igreja” e, consequentemente, basta se encontrar ocasionalmente com outros “desigrejados” para bater um papo sobre Deus que as obrigações bíblicas relacionadas à “comunhão dos santos” já terão sido cumpridas.

Na segunda vez em que a palavra “igreja” aparece no Novo Testamento,
já podemos constatar o absurdo de dizer que cada cristão individualmente “é igreja” ou que qualquer aglomeração de cristãos seja uma igreja:

“Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. (Mateus 18.15-18)

Aqui Nosso Senhor explicou como deve ser o procedimento por parte daqueles que foram seriamente ofendidas por alguém que, presume-se, é cristão. Inicialmente, o ofendido não deve expor o ofensor. Deve procurar resolver o problema a sós com o ofensor. O segundo passo, caso o ofensor não se arrependa do que fez, é chamar duas ou três testemunhas para buscar resolver o problema. Novamente, o ofensor não foi exposto publicamente. A diferença é que agora há a presença de duas ou três outras pessoas. É somente depois destes dois passos que o problema é finalmente levado a Igreja.

É aqui que devemos notar algo crucial. Todo o processo descrito por Jesus incluiria somente cristãos. A parte ofendida e as duas ou três testemunhas são cristãs e, segundo Jesus, deve-se presumir que o ofensor também seja até que todas as tentativas de conduzi-lo ao arrependimento tenham se esgotado. Mas, ainda assim, é somente no terceiro passo que Jesus falou na igreja. Ainda que Jesus tenha falado de cristãos o tempo inteiro, ele não reconheceu cada um desses cristãos como sendo igreja. A parte ofendida era um cristão. Mas, ele não era a igreja. As duas ou três testemunhas também eram cristãs. Todavia, eles também não eram a igreja. Jesus diz que eles deveriam falar a igreja. Isso demonstra que é a falsa a ideia de que cada cristão individualmente seja igreja ou que qualquer aglomeração de cristãos seja igreja. Se cada cristão individualmente fosse a igreja, então o problema já estaria sendo tratado pela igreja desde o momento em que o indivíduo que foi conversar com seu ofensor. Se qualquer aglomeração de cristãos fosse uma igreja, então o problema já estaria sendo tratado pela igreja desde o momento em que as duas ou três testemunhas foram acompanhar o indivíduo que foi ofendido. O indivíduo ofendido junto de duas ou três testemunhas somam três ou quatro cristãos. Eles eram uma igreja? Não. Pois, caso o ofensor não os escutasse, só então é que o problema seria levado à igreja. Isso mostra que a Igreja não é simplesmente as pessoas. A Igreja inclui as pessoas, mas não é simplesmente isso. A Igreja é maior do que as pessoas. A Igreja é uma instituição.

Para perceber como a visão do desigrejados sobre a “igreja” é falsa, basta se fazer a seguinte pergunta: “Como um desigrejado poderia obedecer a Mateus 18? Como seria possível cumprir o terceiro passo da ordem de Jesus?”

O Governo Eclesiástico

A Igreja de Cristo não é uma anarquia. Ela tem um governo. Acima de tudo, há o governo de Cristo, pois Deus “sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da Igreja” (Ef 1.22). E, abaixo de Cristo, Deus instituiu também um governo humano para Sua Igreja:

“E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos dis
cípulos, [Paulo e Barnabé] voltaram para Listra, Icônio e Antioquia, confirmando as almas dos discípulos, exortando-os a perseverarem na fé, dizendo que por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus. E, havendo-lhes feito eleger presbíteros em cada igreja e orado com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido”. (Atos 14.21-23)

Aqui nós aprendemos que os apóstolos, neste caso Paulo e Barnabé (At 14.14), depois de estabelecerem novas igrejas em novos lugares, promoviam uma eleição em cada igreja para que homens fossem ordenados a presbíteros. Antes da eleição, eles eram membros comuns das igrejas. Depois da eleição, recebiam a autoridade para governar a Igreja. A palavra presbítero é πρεσβύτερος (presbuteros) no grego bíblico. A palavra também pode ser traduzida como ancião. Em outros textos, aprendemos também que o ofício do presbítero (πρεσβύτερος – presbuteros) era equivalente ao ofício do bispo (ἐπίσκοπος – episkopos) e ao de pastor (ποιμήν – poimēn). As três palavras eram usadas como sinônimas:

“E de Mileto mandou a Éfeso, a chamar os presbíteros (πρεσβύτερος – presbuteros) da igreja… Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho (ποίμνιον – poimnion) sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos (ἐπίσκοπος – episkopos), para apascentardes (ποιμαίνω – poimainōa) igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si”. (Atos 20.17,28-30)

Aqui o Apóstolo Paulo falou às autoridades eclesiásticas de Efésios sobre como os presbíteros/bispos/pastores foram instituídos por Deus para governar Sua Igreja, o que inclui a necessidade de protegê-la de falsos mestres. Ele escreveu essencialmente o mesmo nas cartas a Tito e Timóteo:

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros (πρεσβύτερος – presbuteros), como já te mandei: Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes. Porque convém que o bispo (ἐπίσκοπος – episkopos) seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes”. (Tito 1.5-9)

“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado (ἐπισκοπή – episkopē), excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo (ἐπίσκοπος – episkopos) seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo”. (I Timóteo 3.1-7)

Aqui nós vemos o Apóstolo Paulo estabelecendo os critérios para que alguém fosse presbítero/bispo/pastor. Primeiro, ele menciona características morais. O presbítero/bispo/pastor deve ser um cristão moralmente “irrepreensível” (Tt 1.7; I Tm 3.2). Caso o candidato seja demasiadamente dominado por fraquezas, ele não é não é apto para se tornar “despenseiro da casa de Deus” (Tt 1.7). Além disso, Paulo compara a função que o presbítero/bispo/pastor exerce na igreja com a função que o pai de família exerce em casa: “que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito. pois, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?”. (I Tm 3.4-5) Assim como o pai tem a responsabilidade de governar sua esposa (Ef 5.24; I Co 11.3) e filhos (Ef 6.1; Cl 3.20), o presbítero/bispo/pastor tem a responsabilidade de governar a igreja de Deus.

Desigrejados que negam que a Igreja tenha um governo humano e autoridades humanas terão negar também a autoridade do pai de família, algo que foi explicitamente ordenado no quinto mandamento – “Honra a teu pai e a tua mãe” (Ex 20.12). Paulo deixou claro que a autoridade do presbítero/bispo/pastor sobre a igreja não é edificada sobre qualquer preferência ou consenso humano, mas é expressamente ordenada por Deus. Ele explicitamente comparou a autoridade do presbítero/bispo/pastor sobre a igreja com a autoridade do pai sobre sua própria família de maneira que não é possível negar uma coisa sem negar outra. Os membros da igreja não têm a mesma autoridade. “Os presbíteros… governam” (I Tm 5.7). Os outros membros da igreja não governam, mas são governados. É assim que Jesus Cristo estabeleceu Sua Igreja para ser. Como está escrito:

“Os presbíteros que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino”. (I Timóteo 5.17)

“Ora, rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, presidem sobre vós no Senhor e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obras”. (I Tessalonicenses 5.12-13)

“Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil”. (Hebreus 13.17)

Não Preciso de Ti!

Se Deus estabeleceu alguns na Igreja para governarem e outros para serem governados, segue-se que se alguém não governa um rebanho, ele necessariamente tem que estar submetida à autoridade daqueles que governam. Se alguém não governo, isto é, se não é presbítero/pastor/bispo, mas também, por consentimento próprio, não é governado, tal pessoa está excluída da Igreja de Deus, do corpo de Cristo e, consequentemente, deve ser, a priori, reconhecida como “gentio e publicano” (Mt 18.17). Não há alternativa lógica. A Igreja de Cristo não é uma anarquia onde “cada um [faz] o que [parece] bem aos seus olhos”. (Jz 17.6) Cristo estabeleceu Sua Igreja com um governo. Aqueles que não se submetem ao governo, não fazem parte da Igreja. Este é um dos grandes pecados dos desigrejados. Eles não se submetem as autoridades constituídas por Deus. Eles acreditam que não precisam das autoridades.

“Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito… E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós”. (I Coríntios 12.13, 21)

Aqui o Apóstolo Paulo deixou claro que aqueles que se tornam cristãos são batizados pelo Espírito no corpo. Isto é, são incluídos na Igreja. Não existe Cristianismo sem Igreja. O cristão, quando se torna cristão, é incluído na Igreja de maneira que se ele se aparta da Igreja, ele está se rebelando contra a obra do Espírito. Com base nisso, o Apóstolo explica que os cristãos, como membros da Igreja, têm dons e vocações diferentes. Mas, ainda que sejam dons e vocações diferentes, o Deus que chama é o mesmo e a Igreja é a mesma. O fato de um cristão ser chamado exercer um dom para uma coisa não significa que ele possa desprezar aqueles que não foram chamados com a mesma vocação. “E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?” (I Co 12.19) Dentre os diversos dons que o Apóstolo cita, ele menciona os “governos” (I Co 12.28). Aqueles que foram chamados para governar são parte do corpo. “E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti”. Aqueles que são governados não podem dizer aos que governam: Não preciso de ti! Deus estabeleceu alguns na Igreja para governarem e outros para serem governados. Aqueles que não se submetem aos que governam – presbíteros/bispos/pastores – pecam severamente contra Deus em sua “independência”. Deus não estabeleceu a Igreja para que cada cristão fosse independente. Ele estabeleceu a Igreja para ser governada por presbíteros/bispos/pastores. A Igreja não é cada cristão individualmente em sua própria casa onde “cada um [faz] o que [parece] bem aos seus olhos” (Jz 17.6). A Igreja é uma instituição com um governo legitimamente instituído por Deus. O Apóstolo Pedro não mediu palavras contra aqueles que se recusam a se submeter às autoridades:

“O Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estão sendo castigados; especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas concupiscências, e desprezam toda autoridade. Atrevidos, arrogantes, não receiam blasfemar das dignidades”. (II Pedro 2.9-10)

A carta de Judas chega ao ponto de chamar aqueles que ensinam a rejeitar as autoridades de falsos mestres:

“Contudo, semelhantemente também estes falsos mestres, sonhando, contaminam a sua carne, rejeitam toda autoridade e blasfemam das dignidades”. (Judas 1:8)

O Culto Público

“As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja”. (I Coríntios 14.34-35)

Aqui, novamente, podemos constatar o absurdo de dizer que cada cristão individualmente é a igreja em qualquer lugar ou que qualquer aglomeração de cristãos seja uma igreja. Se cada cristão individualmente fosse igreja ou se qualquer aglomeração de cristãos fosse uma igreja, segue-se que, neste verso, Paulo estaria proibindo as mulheres de falarem em qualquer circunstancia e em qualquer lugar. Evidentemente, não é sobre isso que Paulo estava falando. A palavra igreja nestes versos, evidentemente, se refere especificamente à reunião publica especial. O que Paulo disse é que as mulheres não podem ensinar e pregar no culto público. Elas podem falar em qualquer outro lugar e situação, como, por exemplo, em suas casas, simplesmente porque neste caso elas não estão na reunião pública da igreja.

Desigrejados e outros hereges anarquistas têm dificuldades de entender isso porque eles não aceitam qualquer diferença entre o que acontece na igreja e o que acontece fora da igreja. Eles acreditam na mentira de que cada um de nós “é igreja em todo lugar” e, portanto, que não acreditam que há um momento especial para uma reunião pública especial com regras especiais que não vigoram em outros momentos. Diferente deles, o Apóstolo Paulo cria que em situações normais, as mulheres poderiam falar, m
as que o culto público é uma ocasião especial com regras especiais, dentre as quais existe a seguinte regra: “as vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas”. Com isso, Paulo claramente demonstra que as igrejas devem promover cultos públicos, que os cristãos tem a obrigação de frequentá-los, que essas reuniões são distintas de situações comuns do dia a dia (já que nelas vigoram regras diferentes de situações normais) e que estas reuniões devem ser reguladas pela vontade revelada de Deus e não pelo desejo do homem (I Co 14.36). Com isso, vemos claramente que não é possível “sermos igreja” cada um em sua própria casa. Deus estabeleceu que sua Igreja de forma que cada cristão tem a obrigação de frequentar reuniões públicas especiais promovidas pelas autoridades da Igreja com o propósito de cultuar ao Senhor. Na carta aos Coríntios lemos que um dos propósitos destas reuniões era o de celebrar o sacramento da Ceia do Senhor:

“Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão… Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros. Mas, se alguém tiver fome, coma em casa, para que não vos ajunteis para condenação”. (I Co 10.16-17; 11.23-34)

Aqui o Apóstolo Paulo escreveu sobre o rito da Ceia do Senhor. Ele diferenciou as refeições comuns, que comemos em casa, da Ceia do Senhor. Assim como a reunião da igreja não é uma reunião comum, mas é uma reunião especial na qual vigoram regras especiais, a Ceia do Senhor não é uma refeição comum, mas é uma refeição especial e, portanto, vigoram regras especiais. O cálice, diz ele, é o “cálice da benção”, “a comunhão do sangue de Cristo” e o pão é “a comunhão do corpo de Cristo”. Diferente de nossas refeições comuns, o propósito da Ceia do Senhor não é matar nossa fome. “Se alguém tiver fome, coma em casa” (I Co 11.34). O propósito da Ceia do Senhor é se alimentar espiritualmente.

Além disso, devemos notar que se a Ceia do Senhor é “a comunhão do corpo de Cristo”, segue-se que este rito somente pode ser celebrado sob a autoridade da Igreja. Não é uma celebração do mundo, mas daqueles que “sendo muitos, [são] um só pão e um só corpo” (I Co 10.17). Isso, por si só, explica porque desigrejados não podem celebrar a Ceia do Senhor. Eles não fazem parte do corpo porque se recusam a se submeter às autoridades do corpo e, portanto, não podem comer do pão e beber do vinho. “Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão”. Aqueles que não fazem parte do corpo, por não se submeterem às suas autoridades, não podem se alimentar do corpo e do sangue do Senhor.

Quanto aos que participam da Ceia do Senhor, o Apóstolo Paulo ameaçou “Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor” (I Co 11.29). Em seguida, ele explica que muitos daqueles que Deus pune com doenças e até mesmo com morte alguns dos que participam indignamente: “Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados” (I Co 11.30-31). Se a questão é tão séria assim para aqueles que de fato participam de algo que foi ordenado por Deus, o que se dirá então daqueles que se dizem cristãos, mas pensam ser autossuficientes e por isso não frequentam os cultos da igreja, não se submete as autoridades e não tomam a Ceia do Senhor? Como Deus vê a arrogância daqueles que pensam que podem ser independentes das ordenanças que Deus estabeleceu para Sua Igreja?

O Mito da Igreja Primitiva

Muitos desigrejados se defendem argumentando que o problema é que a igreja hoje, diferente da igreja primitiva, é muito corrompida; que eles não teriam problema em fazer parte das igrejas do Novo Testamento, mas que os tempos agora são outros. É o mito da Igreja Primitiva. O fato é que o Novo Testamento não esconde a quantidade de problemas que assolava a Igreja Primitiva. Na Igreja Primitiva havia quem matinha relações sexuais com a própria madrasta (I Co 5), quem promovia bebedeiras na Ceia do Senhor (I Co 11.23), cultos desorganizados (I Co 14) incluindo mulheres que queriam pregar e exercer autoridade na Igreja (I Co 14.34-35), quem não cria na ressurreição dos mortos (I Co 15), quem defendia a idolatria e a participação em cultos pagãos (I Co 10, Ap 2.14, 2.20-21), quem queria reinstituir a necessidade das cerimonias judaicas (Cl 2), quem defendia que a circuncisão era um critério para a salvação (At 15, Gálatas), quem defendia a justificação com base nos méritos de cumprir a Lei (Gálatas), quem defendia o racismo (Gl 2.11-12) quem pregava com segundas intenções e interesses desonestos (Fp 1.15, II Ti 6.5), quem prestava culto a anjos (Cl 2.18), quem queria favorecer os ricos e desprezar os pobres na igreja (Tg 2.1-5), quem se apresentava como cristão mas na verdade era um anticristo (I João 2.18-19) e muitas outras coisas.

O fato é que, mesmo em meio a todos esses problemas, os apóstolos nunca justificaram o desigrejados. O Novo Testamento nem sequer cogita a possibilidade de um cristão genuíno ser um desigrejado. Nas páginas do Novo Testamento, ser cristão inclui ser membro da Igreja e não s
er membro da Igreja significa ser pagão. O Novo Testamento desconhece a noção de Cristianismo sem Igreja e invariavelmente trata aqueles que não fazem parte da Igreja ou que abandonam a Igreja como rebeldes contra o Senhor. E isso em nenhum momento se baseia em um conceito utópico de Igreja. A Igreja era o corpo de Cristo. Mas, ao mesmo tempo, havia igrejas em diversos níveis espirituais diferentes. Havia igrejas maravilhosas, mas havia também igrejas afundadas no pecado. A Igreja era a congregação dos santos, mas era também um lugar em que havia facções, brigas e falsos mestres. O mesmo é verdade hoje. Há igrejas maravilhosas e há igrejas extremamente problemáticas. A reação dos apóstolos diante das problemáticas nunca foi a de abandonar tudo o que foi a de anular a verdade que a Igreja visível e institucional foi estabelecida por Jesus Cristo. A reação dos apóstolos era a de lutar pela purificação e santificação da Igreja, por meio da oração, do jejum e do ensino da Palavra. É exatamente isso o que os desigrejados não querem. Preferem acreditar que isso não fazia parte do Cristianismo Primitivo e, portanto, que estão muito acima de tudo isso. Isso é quando sequer dão justificativas. Na maioria dos casos nem se importam em se justificar.

Resumo

I – A Igreja visível e institucional foi estabelecida por Deus.

II – Ela é governada por autoridades humanas.

III – Ela promove reuniões públicas para cultuar a Deus, pregar Sua Palavra e celebrar os sacramentos.

IV – Todo cristão tem a obrigação de fazer parte da Igreja, se submetendo às suas autoridades e participando das reuniões publicas.

V – O Novo Testamento não reconhece a validade de um Cristianismo fora da Igreja visível e institucional.

A Confissão Belga, um dos mais importantes documentos do protestantismo, resumiu bem a questão no Artigo 28, “O Dever de Juntar-se à Igreja“: “Cremos, então, que ninguém, qualquer que seja a posição ou qualidade, deve viver afastado dela e contentar-se com sua própria pessoa. Mas cada um deve se juntar e se reunir a ela, mantendo a unidade da Igreja, submetendo-se a sua instrução e disciplina, curvando-se diante do jugo de Jesus Cristo e servindo para a edificação dos irmãos, conforme os dons que Deus concedeu a todos, como membros do mesmo corpo… todos os que se separam desta Igreja ou não se juntam a ela, contrariam a ordem de Deus”.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Santa Maria, rogai por nós...

Renan A. Moreira

 O título da postagem era a chamada do Jornal “Extra” no dia 28/01/2013, um dia após a “Tragédia” de Santa Maria. Determinados fatos de repercussão nacional obrigam algumas pessoas a se pronunciarem e de algum modo me vejo em igual dever. No entanto devo frisar que meu pronunciamento não segue a correnteza da comoção, onde se vê o rosto de mais de 400 heróis, sendo que destes teríamos pelo menos 200 baixas. Eu prefiro correr o risco de ser tido como alguém sem coração do que alimentar um mito, mito que surge por força do momento e do forte bombardeio midiático.

Inicialmente, eu quero chamar a atenção para a chamada do Jornal, sendo que a mesma encontra-se elencada abaixo:



“Santa Maria, rogai por nós” é o trecho de uma reza romanista que segue com “agora e na hora de nossa morte”. A morte é um divisor de água, pois aponta para aquilo que é e que deixou de ser; torna límpida a diferença entre o ouvir o sorriso e o cessar do sorrir; faz com que fique claro que algumas músicas passarão a trazer recordações e que aquelas recordações serão, de fato, apenas recordações impedidas de serem revividas porque alguém que fazia parte delas já não existe; A morte transforma o sorriso do dia nas lágrimas da noite, transforma o intenso respirar da madrugada em um silêncio deprimente. Acabou e tudo o que resta é uma expectativa de: “E agora?”

E agora? Para aqueles que ficaram, resta a saudade e para aqueles que se foram, resta o juízo (Hb 9:27). Não são palavras que as pessoas gostem de ler ou ouvir, mas são situações dos quais ninguém está livre. O juízo é gracioso apenas para aqueles que detém a razão e a razão não é decorrente dos próprios méritos, mas do caráter do Eterno Deus e do quanto aqueles que morreram se atentaram para Ele.

Não penso em falar então de todos aspectos concernentes à morte, talvez possa tratar deles em um outro momento. Minha preocupação é de caráter pontual, de forma específica, me atentarei sobre a questão social e política, nosso sistema de pão e circo, nossa visão de heroísmo.

Qual o cenário de comoção nacional? Toda história tem um cenário, esse cenário pode ser o ambiente onde ocorrem situações alegres, tristes ou indiferentes, logo não importa o tipo de emoção, sempre que há uma emoção, há um contexto e há um lugar. O lugar de nossa história trágica é a Boate Kiss.

Na Boate Kiss um grande grupo de estudantes universitários se reuniram. O que faziam? Curtiam a vida, afinal de contas a vida é curta, sendo estes os termos do pensamento de um jovem que fez sua postagem no facebook alguns instantes antes de sair de casa. Sim! A vida é curta e é por ser curta que cada passo deveria ser pensado de forma coerente. A vida é como uma vela acesa que tem sua chama extinta por qualquer vento contrário que incida nela.

A folha de São Paulo aponta para 231 mortos e 106 hospitalizados, não estando incluídos nos números aqueles que conseguiram se salvar. Eram jovens, anônimos para o Brasil, estudantes dos mais diversos cursos e que repentinamente se tornaram... heróis! Alvos da comoção nacional. Entendo a dor dos familiares, mas não entendo a tolice de nossa nação! Entendo a dor dos familiares porque de fato querem resposta para o enigma “Por que?” e não compreendo a tolice de nossa nação pelo fato de... ser uma nação tola.

O mesmo país que gastam dias e dias vendo Realitys Shows, ligando para programas ridículos a fim de votar no vencedor do “milhão de reais”; que gastam horas do seu dia vendo futebol e discutindo quem vai ou fica na segunda divisão e que de forma inconsequente não entende nada sobre o que ocorre na sua cidade é o mesmo povo que como em um passe de mágica se torna solidário com aqueles que nunca viu.

Não se trata da solidariedade de quem estende as mãos para amparar, mas da solidariedade do politicamente correto, do silêncio e reclamações de algumas horas para então, posteriormente, postar fotos de um copo de cerveja no Bar ou dizer um “Partiu Churras” após afirmar que se encontrava de luto pelos que morreram em Santa Maria.
#PartiuChurras - a Hashtag de muitos "enlutados"

A questão não é de acidez, mas de sinceridade. Pessoas que lastimam a morte destes jovens se esquecem que eles plantaram na carne e colheram a corrupção. Minha análise não se baseia na morte de per si, mas sim no nexo causal existente nos momentos que antecederam o óbito. Se agora todos indagam de quem é a responsabilidade, eu diria que deveriam por os mortos de frente ao espelho para encontrarmos os primeiros responsáveis.

Reconheço que não estou sendo doce, mas a questão é que é de tanta doçura e pseudo-emocionalismo que temos um país de pão e circo e que finge se importar com as agruras deste país. O mesmo indivíduo que presta solidariedade com os de Santa Maria como se fosse uma tragédia excepcional, trataram o desabamento do prédio no RJ de igual modo e não mais cobraram respostas. Percebe-se que os momentos de comoção geram pessoas “insanas” ou, no mínimo, contraditórias, pois seu conceito de solidariedade se esvai com o tempo, não importando se alegou “que jamais se esqueceria daquela data”.

Não trato a vida de uns como menos importante do que a dos outros, no entanto é perceptível que alguns dão causa aos resultados, seja pela incoerência ou pela falta de dever de cuidado. Ainda indaga-se: quem são os culpados? Responderei, sendo que a cadeia de responsabilidades é suficientemente grande. A imagem abaixo é uma ilustração retirada da folha de São Paulo e que demonstra como funcionava a boate:


Analisando a imagem, facilmente percebe-se que há responsabilidade por parte dos jovens, por parte do município, por parte do dono da casa de shows e por conta dos cantores contratados.

Pignatta e Silva, da Poli, afirmou que as pessoas precisam criar um cultura de salvaguardar sua vida em situações como a encontrada no Rio Grande do Sul.

"Infelizmente, o fato de existir uma casa com capacidade para mais de mil pessoas, em um ambiente totalmente fechado, não deu um alerta na cabeça de ninguém. Ainda mais com objetos pirotécnicos no palco".

Os jovens não se atentaram para condições mínimas de segurança, para a própria segurança. Se alguém diz que eles foram lá apenas para se divertir e que não havia como prever, estará sendo “cínico”. Primeiramente um acidente não precisa ser palpável para ser evitado, caso contrário a palavra não seria EVITAR, mas sim CONTORNAR. Basta haver um vislumbre, ainda que hipotético. Uma casa de shows com uma ou duas portas estreitas, sendo que a mesma tem capacidade para mais de 1000 pessoas exige que as próprias pessoas policiem sua segurança.

Os donos e a banda que tocou no show são visivelmente responsáveis por fatos que dispensam a explicação, no entanto o poder público é o que mais assombra em sua falta de cuidado. Ao observar o caso me indago: como uma placa enorme com o nome “Kiss” passa despercebida pela fiscalização? O poder público nunca percebeu que a quantidade de portas e o tamanho delas era insignificante para a quantidade de pessoas que adentravam o recinto?

Não há inocentes e não há heróis. Não me digam que os mortos merecem um monumento em seu nome, pois isto não é verdade. Eles não estavam prestando um papel de relevância para sua nação ou para outro país. Não morreram ajudando desenterrar corpos soterrados ou ajudando alguém se livrar da enchente; não morreram de malária tentando ajudar os ribeirinhos do Amazonas ; não morreram por se jogar na frente de uma "bala" que iria acertar um inocente. Morreram porque quiseram se divertir e foram suficientemente inconsequentes para zelar de sua própria segurança. Por que mereceriam um monumento?


Talvez alguns considerem bonito a comoção geral, mas esta é uma daquelas situações no qual a sociedade age como em uma manada... Todos os pesares e conceitos acabam sendo uma repetição de um conteúdo politicamente correto. É como pintar um juiz corrupto como sendo o herói da nação. Pode agradar, mas não é verdade. Os jovens morreram? Sim! É triste? Sim! Mas não tratemos aqueles jovens como heróis ou como se o que aconteceu com eles fosse culpa exclusiva da banda ou do dono da boate. Os jovens foram igualmente responsáveis!

Temos tragédias todos os dias e estas são realmente difíceis de serem calculadas, mas a da boate não foi uma tragédia, mas sim uma escolha mal calculada. Reitero que os jovens não são heróis, são tão responsáveis pelo que ocorreu quanto os demais responsáveis. Viveram como se não houvesse amanhã e para alguns, de fato não houve.

Se falo de forma dura não é porque seja o melhor a fazer, mas com certeza é o mais necessário. A preocupação social que se vê é falsa e o tempo falará o quão falsa é. Dentro de algum tempo ninguém mais se lembrará do ocorrido, o suposto luto haverá cessado e daqui um ano algum jornal trará a notícia de que “completou um ano da tragédia em Santa Maria” e novamente ocorrerá uma rápida comoção, bem menor, mas uma comoção para não dizer que esqueceram. A falsidade social enoja e precisa ser repreendida.

Inegavelmente a família sofre, mas não haveremos de endeusar àqueles jovens. A morte não é aquilo que santifica todos os homens e faz com que todos se tornem bons. A morte é aquilo que faz cessar o que eles eram e a única transformação que ela opera é da dor e de transformar o corpo em cinzas.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Uma Visão para o Mundo Hispânico


 Bojidar  Marinov

 “América é ingovernável. Os que tem servido a revolução tem arado o mar. A única coisa que se pode fazer na América é emigrar.”

Símon Bolívar
Estas palavras foram escritas por Simão Bolívar, o Libertador da América Latina, um mês antes da sua morte aos 47 anos de idade. No momento em que escrevia esta carta, estava enviando várias malas com seus pertences para  a Europa, preparando-se para emigrar. Seus planos viram-se frustrados pela sua batalha final contra a tuberculose. Um dos revolucionários mais bem sucedidos do mundo, o único homem na história cujo nome levavam duas nações ainda em vida, morreu, contudo, amargurado contra seu próprio povo e declarou que seus êxitos políticos e militares eram como “arar o mar”. Bolívar começou sua carreira de revolucionário tendo o ideal político do recém-fundado Estados Unidos. Ele próprio era um admirador de Thomas Jefferson. No entanto, mais tarde Bolívar declarou que os ideais Jeffersonianos não funcionariam na América Latina. A razão, disse ele, era que a América Hispânica está sujeita ao “triplo jugo da ignorância, da tirania e do vício”. Raramente vemos políticos modernos tão honestos acerca do verdadeiro estado de seus próprios eleitores.

Duas gerações depois, o Presidente Mexicano Porfirio Diaz, depois de ter transformado o México em uma nação moderna a par dos Estados Unidos e das nações europeias, pronunciou suas famosas palavras: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. Diaz não foi um político moral de ilustre criatividade, mas sua franqueza em expressar sua verdadeira opinião sobre o problema do México merece admiração.

Ambos, Bolívar e Diaz, reconheceram o verdadeiro problema da América Latina – sua cosmovisão fundamental. Diaz entendeu que “longe de Deus” o México se fez “pobre”. Bolívar reconheceu que seu país estava sob o jugo da ignorância e do vício. Eles entenderam muito bem que América Latina tinha um problema de cosmovisão e, portanto, que tinha um problema moral; e, portanto, tinha problemas políticos, econômicos e sociais. Não se deixaram enganar nem por suas próprias ideologias liberais. Nenhum deles esperava ver melhores tempos para a América Hispânica ao menos que sua cosmovisão mudasse.

E nenhum deles fez nada a respeito.

Tanto Bolívar quanto Diaz preferiram meios políticos, militares e administrativos para alcançar seus objetivos. Tampouco investiram tempo ou esforços para mudar a cosmovisão básica de seus povos; ambos preferiram tratar os sintomas no lugar da enfermidade. Embora ambos tenham produzido importantes mudanças em suas respectivas nações, a cosmovisão básica da população seguiu sendo a mesma e, portanto, o legado político e os ideais de ambos pereceram para serem substituídas por ideologias e práticas hostis a esse legado.

E não estavam sós. Desde sua libertação na década de 1820, a América Latina tem visto numerosas tentativas de reformas sociais que somente buscam a mudança institucional. A região tem visto revoluções sangrentas, golpes de estado, rivalidades políticas e tentativas de reformas econômicas. Estabeleceram-se sistemas escolares, a infraestrutura foi edificada. Adotaram-se novos slogans, ou os velhos slogans foram reciclados para um novo uso. Convidou-se especialistas dos Estados Unidos e Europa para ensinar novos métodos de administração e implementar estruturas jurídicas. Nada funcionou. Numa análise final, a América Latina se mantém nas garras da pobreza generalizada e da corrupção. O sonho de Simón Bolívar de ver seus compatriotas construírem uma sociedade como a britânica ou a norte-americana nunca tornou-se realidade.

E há uma razão para isso. A razão é que a Grã Bretanha e a América não construíram-se sobre as ações dos políticos e revolucionários  e sim sobre os escritos dos pensadores. Thomas Jefferson não criou a liberdade nos Estados Unidos, João Calvino o fez. As vitórias militares de George Washington não foram as que estabeleceram a nação norte-americana, os sermões de John Witherspoon o fizeram. Tanto na Grã Bretanha quanto nos Estados Unidos foi a cosmovisão integral subjacente do Cristianismo Reformado que criou e sustentou a cultura. Sem ela, tanto os Estados Unidos quanto a Grã Bretanha teriam sido apenas um outro México. Se os escritores Reformados e Puritanos não tivessem realizado sua missão de transformar a cosmovisão do mundo de fala inglesa, se não houvessem assentado as bases intelectuais da civilização Cristã de liberdade e justiça para todos, não haveria existido um Washington, nem um Jefferson, nem uma América. O fracasso do mundo Hispânico em produzir uma sociedade justa e próspera se deve ao fato de que há carência de Reformadores – e me refiro aos Reformadores, Lutero, Calvino, e sua atual herança intelectual e espiritual. Sem seu fundamento intelectual nada pode ser mudado na América Latina – não importa quantos golpes sangrentos, revoluções e medidas administrativas ocorram.

Desafortunadamente, as igrejas Protestantes na América Latina tem seguido o exemplo dos políticos. A maior parte da atividade evangélica tem sido apenas esforços institucionais, como a plantação de igrejas, com muito pouco ensino de cosmovisão. De fato, a maioria dos missionários da região não tem nenhuma concepção de uma cosmovisão Bíblica integral. Seus esforços tem sido orientados a curto prazo, e sua mensagem tem se limitado somente à salvação do indivíduo, como apontou há algum tempo um artigo da revista Christianity Today: “Se as viagens missionárias de curto prazo produzissem resultados a longo prazo, o México seria o país mais cristianizado do mundo”. Os novos métodos de “evangelismo corporativo” ou “evangelismo comunitário” podem produzir frutos a curto prazo; porém, essencialmente, são somente outro exercício de mudança institucional sem uma mudança de visão do mundo real. Na medida em que a América Latina segue sendo cativa da aliança do paganismo – entre as massas – e do humanismo secular – entre as elites educadas – haverá poucas esperanças de uma mudança real e duradoura. E a Igreja não está fazendo muito para desafiar esse domínio da cosmovisão pagã e do humanismo secular. Novamente, sem uma mudança integral na cosmovisão do povo, há poucas esperanças de uma mudança duradoura em todas as áreas da vida.

Contudo há um caminho melhor. Como todo caminho melhor, é um caminho longo. Pode tomar gerações. Sem dúvida tomou vários séculos na Europa antes que a Reforma produzisse sociedades com liberdade e justiça para todos. Uma cultura que está “longe de Deus” necessita de gerações inteiras para regressar a Ele, quanto cultura. Contudo isso não se sucederá com reformas políticas, nem com a plantação de mais igrejas; e não se dará por viagens de evangelização a curto prazo. Uma cultura está "longe de Deus" somente porque tem uma cosmovisão que é hostil a Deus. E, ao menos que essa cosmovisão seja desafiada e destruída, e substituída por uma cosmovisão baseada na Bíblia, nada irá mudar.

Entretanto, onde os povos da América Latina podem encontrar uma cosmovisão alternativa?

Em seu discurso ao Congresso de Angostura em 1819, Simão Bolívar admoestou os delegados a "estabelecer este Areópago para velar pela educação das crianças, supervisionar a educação nacional, purificar tudo que possa estar trazendo danos à República, denunciar a ingratidão, a frieza no serviço ao país, o egocentrismo, a preguiça, a ociosidade, e denunciar os primeiros sinais de corrupção e exemplo pernicioso." Seu clamor foi sincero mas ele poderia ter fixado bases para explicar o que é "corrupto" e o que é puro, o que é "exemplo pernicioso", e não teve nenhuma forma de explicar por que o "egocentrismo, a preguiça e o ócio" são maus. O próprio Simón Bolívar aprendeu com autores britânicos e estadunidenses cujas obras não estavam disponíveis em espanhol. O grosso da literatura que impregnava o mundo de fala inglesa não estava disponível para seus compatriotas. Não houve nenhum fundamento intelectual.

Todavia, hoje ainda não há.

E aqui é onde se encontra a oportunidade para um missionário Cristão. Ele pode fornecer esse fundamento intelectual que desafie o reinado do paganismo e do humanismo secular e que ensine na América Latina o que é corrupto e o que é puro. Ele pode fornecer a cosmovisão que aproxime a região de Deus. Ele pode confrontar a ignorância, a tirania e o vício com as ideias do conhecimento, da liberdade e da justiça.

Ele deve esforçar-se em traduzir para o espanhol livros que expliquem a cosmovisão Bíblica integral para todos os âmbitos da vida. Deve torna-los disponíveis em uma linguagem compreensível à mais de 400 milhões de pessoas. Também pode utilizar a Internet para ultrapassar as fronteiras nacionais. A fragmentação política da América Latina é uma benção de Deus - isto detém os tiranos (Imaginem um Hugo Chaves sobre toda a América Latina). A unidade do idioma também é uma benção - as ideias podem viajar tão longe quanto os servidores da Internet permitirem. Um livro traduzido para o espanhol e publicado online possivelmente chegará a dezenas de milhões de pessoas - mais do que qualquer missionário possa fazer, em proporção ao custo. Não pode ser proibido, não pode ser barrado por nenhum ditador. Pode ensinar-se as pessoas 24 horas por dia, 7 dias por semana, 52 semanas ao ano, durante centenas de anos. Um livro é um missionário de tempo integral, melhor que um missionário de carne e osso.

Há livros disponíveis: os publicados pela Chalcedon Foudantion, American Vision e outras organizações que nas últimas décadas tem trabalhado para criar a dita base intelectual na América. O mundo Hispânico não precisa reinventar a roda. Somente tem que tomar o que tem se criado e aplicar ao seu próprio contexto.

Este projeto tomará muito tempo. Pode ser um projeto para toda uma geração de Cristãos - para construir o "livro base" do Cristianismo. Tomará o processo lento e minucioso de traduzir uma palavra após a outra, uma frase após a outra, uma página após a outra, milhares de páginas. Tomará o compromisso que a América Hispânica não tem tomado. As soluções que tem-se experimentado até o momento tem sido rápidas, a curto prazo e infrutíferas. Se um missionário Cristão quer desafiar o sistema mundial, ele deve olhar para além de sua própria geração, e deve negar-se em sucumbir a tentação de buscar resultados rápidos. Os livros de cosmovisão bíblica traduzidos para o Espanhol devem ser seu objetivo, inclusive se apenas tem como resultado tê-los num website. Os livros traduzidos devem cobrir todos os âmbitos da vida a partir de uma perspectiva Cristã: vida pessoal, família, igreja, educação, governo economia, ciência, relações internacionais, ética empresarial, finanças, dinheiro, transações bancárias, etc. Nada deve estar fora do alcance da civilização Cristã. Cada solução deve apresentar-se de acordo com a Lei de Deus como estabelecida na Bíblia.

Quando se cria uma fundação semelhante, não haverá outro lugar onde os povos e os líderes da América Latina irão em busca de respostas. Quando surgir um problema, haverá somente um lugar que vai ter as soluções lógicas dentro de um marco coerente. Nenhuma outra religião ou filosofia tem um marco coerente deste tipo. Qualquer um que rechace as soluções Bíblicas não terão nada mais a oferecer. O Cristianismo triunfará pela incapacidade de seus inimigos em oferecer algo mais valioso.

E há algo começando. Cinco títulos da American Vision foram traduzidos para o espanhol, e tem produzido frutos em muitos lugares.

Há um homem que começou a traduzir faz vários anos. Seu nome é Donald Herrera Terán, e é um Pastor de uma igreja Reformada na Costa Rica. Ele tem um website com muitos livros e artigos traduzidos: http://contra-mundum.org/. Ele está produzindo a tradução Espanhola do livro Unconditional Surrender de Gary North. Sua tradução produzirá muitos frutos.

Gary North's Book
Quero concluir com um chamado aos cristãos hispânicos que leem a American Vision: você tem uma oportunidade única de transformar um hemisfério inteiro e levá-lo à Cristo. Façam o compromisso de traduzir umas poucas horas por semana. Tomem uns poucos artigos a princípio. Aprendam a escrever e traduzir rápido. Aprendam a ter paciência para sentar-se em frente ao teclado de seus computadores e escrever letra por letra. Cada letra que escreverem permanecerá durante décadas, muito tempo depois de vocês irem e instruirá a gente na fé que provavelmente nunca conhecerão. Vocês tem a oportunidade de fazer história.

Contactem Donald Herrera Terán em domadar@yahoo.com - ele tem muito trabalho a fazer - e perguntem-lhe o que precisa ser traduzido prioritariamente. Coordenem-se com ele e comprometam-se a contribuir com seu website. Vocês tem pelo menos umas 100.000 páginas de livros de cosmovisão bíblica que devem ser traduzidos. Somente um homem não pode fazê-lo em toda sua vida, porém dez homens comprometidos podem si o fazer. Uma centena de homens comprometidos podem alcançar o objetivo dentro de dois ou três anos sem comprometer-se muito. Quando tiverem tudo isto online, se surpreenderão com os resultados.

E meu chamado é também para os Cristãos Americanos: já passou o tempo das custosas missões a curto prazo orientadas apenas em salvar almas. Deus já não honrará nossos esforços, não importa quanto dinheiro se invista. Europa, nas últimas décadas, tem demonstrado o fracasso dessa classe de projetos truncados e limitados. Tem chegado o momento em que o campo de missões tem se convertido em um campo de batanha de cosmovisões mais que uma luta por salvar umas poucas almas. Se lhes interessa a América Latina, tomem decisões sábias acerca de como podem ajudar. Invistam em fundações para o futuro, e qual a melhor fundação que tem livros em Espanhol com soluções Bíblicas reais para os problemas do mundo real?

Símon Bolívar estava equivocado. Emigração não é a única coisa que se pode fazer na América Espanhola.